Considerado extinto, o idioma xipaia
foi "redescoberto"
JOÂO PAULO GONDIM
da Editoria de Treinamento
Considerado extinto, o idioma xipaia foi "redescoberto" em 1988 por uma então estagiária do Museu Paraense Emilio Goeldi, Carmen Rodrigues. À procura de uma língua indígena para estudar, ela soube que talvez houvesse falantes do xipaia em Altamira (a 898 km de Belém) e cruzou o Estado em busca deles.
TEXTO EM XIPAIA
Mito sobre a cobra grande
| 1 | pãwãpa se yadï, adja paï urapïpï padiku de. | Quanto ao Pãwãpa, a cobra grande pegou-os. |
| 2 | xipai padiku, iya yuze yadï dju ta. | Pegou os xipaya, (e ) levou-os para a água. |
| 3 | tade du tï da, kiwi yadï da yari yadï da. | Então, todos eles, eles ficaram alegres. |
| 4 | karia bïya yadï da. | Eles dançaram e cantaram. |
| 5 | tïdai iya du tade yadï da ya: | (Mas) eles viram a água e começaram a chorar: |
| 6 | iyã he si he! ya yadï da. | - nós vamos morrer! Eles choraram. |
| 7 | iya he aza. | (Eles) caíram na água. |
| 8 | tade du tï ibïa ki’ yadï xã. | Aí, saiu apenas o fígado deles. |
| 9 | paki’ yadï xu de i-bïa xu. | A piranha comeu o fígado deles. |
| 10 | tade du tï iza ta aka yuze, duazi ze yadï: | Então, o irmão dele foi para a casa dele, (e) disse para a mulher dele: |
| 11 | iyã u-aetabïi, kiwi iyã anu. | . - Eles estão mortos, todos os meus parentes estão mortos. |
| 12 | tade du tï : – kaukade na ta du de. | ‘Depois, ele (disse) : – amanhã, eu vou vê-la (a cobra). |
| 13 | duadjusé tade yadï du de. | (E) durante cinco (dias ele) foi vê-la. |
| 14 | tade du tï ta du de. | (E) então, foi vê-la. |
| 15 | paï xixi’ ki’ yadï wï. | Somente o filhote da cobra veio. |
| 16 | abakau’ adï de. | Ele não a matou. |
| 17 | matuxiu’ yadï de. | (E) ele não a queimou. |
| 18 | tade du tï ta du de ti. | Depois, ele foi vê-la novamente. |
| 19 | tade yadï paï urapïpï pai, maxi na abaka de yadï | Aí (ele se disse) : - a cobra grande, a cobra, agora, eu a matarei (ele se disse). |
| 20 | matuxi yadï paï ze. | Ele queimou a cobra. |
| 21 | paï tuxi mamaku yadï | Ele queimou a cobra. |
| 22 | tï du yadï ta ti‘ | Ele foi ver (a cobra) novamente. |
| 23 | tade du tï pakuã yadï pakuã mayaka supa eépa | Aí, havia bananas, havia folha de mandioca, batata... |
| 24 | kíwi yadï kua he | Havia tudo na roça. |
| Obs.: onde se tem “ i’ “ e “ u’ “, indica que as vogais são nasais. | ||
Embora no relato de Maria Xipaia, feito em xipaya, não apareça a descrição detalhada dos fatos, essa história é muito mais rica em detalhes. Quando Maria Xipaia relata a história em português, percebe-se que se trata de um dos mitos registrados por Curt Nimuendaju, cuja versão em português aparece em Fragmentos de Religião e Tradição dos Índios Sipáia (Nimuendaju, 1981) – traduzidos para o português por Eduardo Viveiros de Castro e Charlotte Emmerich.
No registro de Nimuendaju, a cobra é denominada “ Toßí ”, e no relato de Maria Xipaia é denominada “ paï urapïpï“
Segue a história registrada por Nimuendaju (1981, 27):
Toßí, A serpente grande
“No princípio, os Sipaya não tinham plantas alimentícias. Viviam de madeira raspada, frutas silvestres, de caça e pesca. Um dia, os caçadores encontraram no mato a serpente Toßí. Tinha um traço branco ao comprido no alto da cabeça, traços azuis e vermelhos ao longo das faces. Cada um dos caçadores deitou a mão sobre o animal e disse: “Esse pedaço é meu!” Apenas um indicou o pedaço que queria encostando-lhe a ponta da flecha; quando, porém, a quis retirar, a ponta ficou presa na pele da cobra, e assim ficaram todos os homens que lhe tinham posto as mãos. Toßí saiu coleando com eles, puxando-os todos para dentro do rio, aonde as piranhas os devoraram; só os intestinos subiram à tona. Na margem esquerda do Curuá, acima do barbado, vê-se ainda hoje, nas faldas de um morro, o rastro da serpente, que leva a um fundo remanso do rio. O único homem que escapou correu de volta à aldeia, comunicando o desastre. Os outros seguiram então o rastro da serpente e a encontraram, outra vez deitada no mato. Abateram as árvores ao redor dela, de maneira que caíssem sobre o monstro. Quando tudo estava bem seco, atearam fogo em todo o círculo. Toßí gritou ao sentir o fogo, e em todas as montanhas das cercanias seus filhos responderam: em cada morro havia uma serpente. Quando Toßí acabou de se queimar, cresceram no local diversas plantas desconhecidas do Sipáia. Então veio a ave kumáwari kurisu, que tomou forma humana e explicou a um Sipáia, que estava parado sem saber o que fazer: “Esta aqui se chama mandioca e aquela lá, milho, e isto aqui são batatas, etc.” Em seguida, ensinou ainda aos Sipáia como deveriam aproveitar as plantas úteis.”
Fonte: Professora Carmen Rodrigues, da Universidade Federal do Pará (UFPA)
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XIPAIA |
PORTUGUÊS |
babaru |
esteira |
kamenu |
falar |
pixãda |
gato |
apï-mama |
onça |
dïka |
lamparina |
uruku |
remar |
kïakïapa |
tesoura |
kusïri |
trabalhar |
pïamã |
vassoura |
susu |
abano, leque |
manakura |
açaí |
maxi |
agora, hoje |
iya |
água, rio |
makua |
algodão |
kaukade |
amanhã |
pinã |
anzol |
tukama |
arco |
atuhu |
assar |
pakuã |
banana |
pïa |
bonito |
itaba |
cabeça, cabelo |
apï |
cachorro |
pïza |
canoa |
aka |
casa |
mana |
chuva |
huta |
cobra (nome genérico) |
asa |
farinha |
ibïa |
fígado (de algo) |
imabïa |
filho(a) (de alguém) |
tukaya |
flecha |
senapï |
homem |
mãdïka |
lua |
mayaka |
mandioca |
iba |
mão, dedo (de alguém) |
umena |
marido (de alguém) |
sawazi |
criança) |
ziapa |
pajé |
iti |
pássaro |
ibïdapa |
pé (de alguém) |
kuapa |
pedra, faca |
xita |
peixe |
kua |
roça |
huka |
roupa |
kuazadï |
sol |
una |
eu |
ena |
você |
Observações sobre a ortografia usada para a escrita das palavras em Xipaia:
ï - representa uma vogal que não ocorre na língua portuguesa, por exemplo, embora seja frequente nas línguas indígenas. Essa vogal lembra a vogal “ i “, no entanto, a vogal “ i “ é pronunciada com a língua próxima aos dentes, e essa vogal é pronunciada com a língua recuada, em direção ao centro da boca.
h - é pronunciada com o “ r “, de carro, rua, em português.
Fonte: Professora Carmen Rodrigues, da Universidade Federal do Pará (UFPA)
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Em 23 de agosto daquele ano encontrou Maria Xipaya, atualmente com 81. Dias mais tarde,também conheceu uma prima dela, Izabel.
‘Naquele momento, iniciei o trabalho de pesquisa sobre a língua e pude perceber que Maria Xipaya tinha maior fluência,com lembranças de um vasto vocabulário e desenvoltura para relatar, em xipaia, histórias de seu passado e de seu povo‘, diz Carmen, professora de letras da UFPA (Universidade Federal do Pará). Desde então, ela grava depoimentos da índia.
Em seu estudo, a linguista conheceu mais dois xipaias que falam o idioma sem fluência.
Nos registros, Maria contou que ‘xipaia‘ é um bambu, com haste forte e flexível, usado para fazer flechas. Por achar que possui tais características, um grupo de índios do Pará passou a se denominar assim.
Maria descende dessa etnia e sabe que seu idioma está a perigo. ‘Eu não quero que acabe a gíria do xipaia‘, diz ela, que ensina a fala para dois netos.
Qualquer língua corre risco de se extinguir quando não é mais usada no dia a dia, possui um número reduzido de falantes e estes não estão transmitindo a língua para crianças. Segundo mapa da Unesco, há 45 em estado crítico no país
Ensino de línguas
Maria Xipaya aprendeu o português quando era criança porque o achava ‘bonito‘. "Eu não aprendi tudo, não. Mas mesmo assim eu falo." A assimilação do novo idioma sofreu resistência materna. A mãe temia que a filha se esquecesse do seu idioma original.
A índia não só sabe falar português e xipaia, como também se comunica em curuaia. Esta foi ensinada por seu marido, Alberto Kuruaya, um dos últimos falantes. Ele morreu no ano passado.
São comuns casamentos entre xipaias e curuaias. Membros dos dois grupos vivem às margens do rio Curuá, no Pará. O convívio entre as etnias deu-se por conta da expulsão, em1885, dos xipaias de seu território, na beira do rio Iriri, por seus inimigos caiapós.
É com o nome de seu pai, Manoel Cajubim, que ela pretende batizar o centro de aprendizado da língua e cultura xipaia que planeja criar em Altamira. Maria, o filho Raimundo e Carmen enviaram um projeto ao Ministério da Cultura. O objetivo era ganhar um prêmio de resgate cultural. Não deu certo, mas Maria ainda planeja construir a sua escola. Ela quer que sua língua seja como o bambu que a batiza: que vergue, mas não quebre.











