Sem terra, quiniquinaus podem perder ainda sua língua
JOSÉ ORENSTEIN
da Editoria de Treinamento
"Não é só a língua quiniquinau que está em extinção -é o povo também". A frase é da pesquisadora Ilda de Souza, que concluiu em 2008 doutorado sobre a língua quiniquinau pela Unicamp. Ela chegou a essa conclusão após ver o povo se dissipar pelo Mato Grosso do Sul e viver sob o jugo dos índios Cadiuéu. Alguns chamam essa relação de escravidão, outros de vassalagem. Não se sabe ao certo quando isso começou, mas relatos do século XIX já falam na subserviência que os quiniquinaus, um subgrupo do povo guaná, prestavam aos cadiuéus. Ambos os povos ainda habitavam na época o Chaco paraguaio.
| 1 | opekeyku | Axila |
| 2 | îti itiketu | teu |
| 3 | natakay | minhoca |
| 4 | nône | rosto |
| 5 | ûke | olho |
| 6 | hôe | peixe |
| 7 | êno | mãe |
| 8 | mopôe | montanha |
| 9 | kiri | nariz |
| 10 | kipâe | ema |
| 11 | hoyeno kaliwôno | criança sexo masculino |
| 12 | seno kaliwôno | criança sexo feminino |
| 13 | hikere | estrela |
Hoje em dia, os quiniquinaus vivem, em sua maioria, na Reserva Indígena cadiuéu, no município de Porto Murtinho, na aldeia São João. Eles chegaram lá há 60 anos.
O problema, segundo Ilda, é que os quiniquinaus não têm uma terra, o que levou muita gente a confundi-los com os terenas, povo com o qual guardam muitas semelhanças linguística e junto dos quais viveram por muito tempo. "Muitos ficam vagando por várias terras e acabam se empregando em fazendas como peões. Assim eles deixam de falar a língua facilmente", conta Ilda. O quiniquinau é uma língua da família aruaque.
Até meados da década de 90, os quiniquinaus eram considerados extintos e, com eles sua língua. Se hoje eles já são reconhecidos, continuam sem uma terra e uma base para desenvolverem-se como povo. Mas a história não foi sempre assim.
Ajuda ao Brasil
"Apenas chegou a lúgubre e infausta notícia aos aldeamentos dos morros, imenso alarido levantou-se. As moças Kinikinau cortaram logo os cabelos, à altura das orelhas, de si tirando qualquer enfeite. (...) Foi à choupana do valente rapaz invadida pelo mulherio e as crianças, em agudíssima grita."
As moças, no caso, fugiam dos paraguaios. O valente rapaz é o líder quiniquinau Pacalalá. Quem conta a história é Visconde de Taunay, em "Entre nosso índios" (1931, Melhoramentos). Taunay combateu na Guerra do Paraguai (1864-1870) e relatou histórias do front. Os quiniquinaus, exímios agricultores, foram muito úteis ao Brasil, abastecendo os soldados com seus víveres. "Eles foram os únicos indígenas que tiveram uma participação ativa em favor do Brasil na Guerra mas que ficaram sem terra", reclama a linguista Ilda. Resta saber se o Brasil oferecerá alguma recompensa tardia a este povo ou se antes disso ele se perderá.











