Os três últimos falantes da língua poianaua
LUIZA BANDEIRA
da Editoria de Treinamento
A língua poianaua começou a desaparecer por volta de 1910, quando os índios foram sequestrados e escravizados numa fazenda de extração de borracha no Acre. Como forma de impor seu domínio, os seringalistas proibiram a língua e criaram uma escola para ensinar o português.
Quem falava poianaua era castigado. Podia ter os olhos furados e dentes e unhas arrancados, de acordo com o linguista Aldir de Paula, da Universidade Federal de Alagoas.
Hoje, os poianauas vivem onde funcionava a fazenda, em Mâncio Lima (AC), a cem quilômetros da fronteira com o Peru. Entre os cerca de 500 índios, apenas três lembram da língua: os irmãos Railda, 79, e Luiz Manaitá, 85, e o ex-cacique Mario Puyanawa, 65. Mas só ela fala de forma fluente.
Para lutar contra o desaparecimento da língua, os poianaua transformaram a escola criada para destruir o idioma no principal foco de resistência da língua.
Aqui, contamos a história dos três últimos falantes da língua e mostramos como são as atividades da escola.
Railda Manaitá
Quando Railda Manaitá nasceu, em 1931, os últimos poianaua haviam chegado às fazendas Barão e Ipiranga havia mais de 15 anos. Ela não viveu, por isso, os anos de maior repressão. Durante a infância, já não havia tantos atritos com os “patrões”. Ela lembra que eram aplicados castigos de trabalho, mas não mais por causa do uso do idioma. Sobre a proibição, recorda apenas que ouviu, uma vez, seu tio falando que o “coronel” não queria que usasse aquela língua.
Railda é filha de um cearense com uma índia poianaua. Naquela época, a extração de borracha atraiu muitos nordestinos, e os casamentos acabaram sendo também um dos fatores que influenciaram na perda da língua poianaua.
O pai de Railda morreu cedo e ela acabou sendo criada pelo pai adotivo, que também era índio. Mas era a mãe de Railda, Joana Manaitá, quem continuava falando o idioma em casa. Railda aprendeu a falar poianaua ouvindo a conversa dos mais velhos. Ela conta que eles comemoraram quando viram a menina pronunciar as primeiras palavras em poianaua. “Ela vai falar nossa língua”, foi o que disseram, segundo Railda, que repete a frase também em poianaua.
Sobre a escola, diz que frequentou por pouco mais de um ano e que nenhuma das crianças falava poianaua. Acredita que apenas o português era falado porque, naquela época, muitos já tinham vergonha de falar a língua, estigmatizada pela sociedade do entorno.
Anos depois, Railda foi uma das primeiras professoras de poianaua na escola indígena. Mas atualmente ela mora em Cruzeiro do Sul (AC), a cerca de uma hora de carro de Mâncio Lima. Como sua casa fica em local de difícil acesso para quem tem problemas de saúde _Railda sofreu um derrame que a deixou em coma durante três meses e com problemas na fala e nas pernas_, ela já não consegue frequentar a escola.
Mesmo assim, Railda diz que gostaria que os índios voltassem a conversar e afirma que quer "deixar seu nome na história".
Luiz Manaitá
Luiz Manaitá, 85, saiu da fazenda de extração de borracha ainda criança. Aprendeu o poianaua com a mãe, assim como Railda, mas diz que sabe falar "pouco, muito pouco".
Ele não sabe dizer exatamente quanto tempo passou fora da aldeia, mas durante esse período aprendeu outras três línguas indígenas, que acabaram se misturando ao poianaua em sua memória.
Apesar de morar perto da escola, Luiz também teve problemas nas pernas, como Railda, e não consegue mais ir ao local. Conta, porém, que antes disso ensinava músicas e algumas palavras das quais lembrava. “Eu ia para a escola, em todas as classes eu cantava, falava, e explicava o significado das palavras. Eles aprenderam, eles cantam sozinhos”, diz, sorrindo.
Para Luiz, o ensino do poianaua na escola é uma forma de resgatar a identidade indígena. “Vamos levar a nossa cultura. Não abandonar e pegar o que não é nosso. Nós somos índios.”
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Mario Puyanawa
O mais jovem falante da língua poianaua, Mario Puyanawa, 65, não larga seu caderninho. Seu filho, Samuel, 34, faz o mesmo. Pai e filho guardam como um tesouro as anotações que ajudam a manter o idioma.
Mario aprendeu a falar poianaua quando ainda era pequeno. Seu pai falava poianaua como língua materna, pois não nasceu na fazenda (tinha cerca de sete anos quando foi levado para lá). O pai de Mario, assim como a mãe de Railda, continuou falando poianaua em casa, apesar da proibição.
Ele diz que parou de praticar a língua quando entrou na escola, que só ensinava português. A saída de primos da sua idade da fazenda também colaborou para que o contato com o idioma ficasse restrito as conversas que ouvia do pai.
Antes do pai morrer, Mario anotou tudo que conseguiu em um caderno, que hoje o acompanha por toda parte. Mario diz que não consegue conversar no idioma, mas consulta as anotações e, com isso, pode lembrar a maioria das expressões.
Mario passou o conhecimento para um de seus filhos, Samuel, 34, que hoje tem a responsablidade de ensinar o idioma para todas as crianças da aldeia.
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A escola indígena
Na escola poianaua, o número um da chamada é o "Rawikãba" . Brincar em sala de aula não apenas é permitido como também incentivado. Sem as rodas de músicas na língua poianaua, as aulas não tem início.
Mas nem sempre foi assim. Quando surgiu, a escola tinha o objetivo de destruir o idioma, proibido pelos seringalistas. Mas, quase cem anos depois, os índios subverteram o papel das salas de aulas e fizeram destas a grande esperança de manutenção do idioma.
O início do incentivo ao ensino da língua poianaua se deu em decorrência do processo de demarcação das terras, por volta de 1985, que fez com que os poianauas tivessem vontade de recuperar a língua. Mas o ensino da língua foi institucionalizado apenas no ano 2000, quando a Escola Estadual 13 de Maio passou a se chamar Escola Estadual Ixubãy Rabuy Puyanawa e adotou um modelo que respeita diferenças culturais.
São 232 alunos, entre estudantes do ensino infantil, fundamental e médio. As aulas são dadas em português, mas o professor do idioma, Samuel Puyanawa, passa pelas salas e vai traduzindo o conteúdo que está sendo ensinado em cada disciplina. Nas aulas seguintes, os professores das próprias disciplinas fixam o aprendizado. Dessa forma, por exemplo, nas aula de matemática, os números são falados também em poianaua. Na aula de ciências, os alunos aprendem as partes do corpo em português e em poianaua.
Samuel não é falante da língua, mas herdou do pai um caderno em que estavam anotadas todas as lembranças de seu avô. Dessa forma, consegue traduzir palavras e pequenas expressões idiomáticas.
Nas primeiras séries, há aulas de artesanato e ensino de músicas tradicionais. Nas séries seguintes, tem início o ensino de palavras e expressões idiomáticas. No ensino médio, as aulas acontecem em módulos e são dadas pelo linguista Aldir de Paula, que vai à aldeia uma vez por ano. Assim, ele consegue aprofundar um pouco mais o conteúdo gramatical.
As aulas têm o objetivo de ensinar não só o idioma como também a cultura poianaua. Assim, no dia que a reportagem da Folha esteve na aldeia, os alunos do ensino médio estavam fazendo artesanato. Eles haviam ido até a mata para aprender a reconhecer o tipo de cipó que pode ser usado; depois, aprenderam a fazer cestos, vassouras, utensílios para pesca e outras coisas. Segundo o cacique Joel Puyanawa, o objetivo é que eles aprendam um ofício e possam fazer disso uma forma de sustento. Mas também aí a atividade de recuperação da língua estava envolvida: terminada a tarefa, os alunos tinham a obrigação de escrever todo o processo de feitura, em poianaua.











