Últimos cinco falantes da língua canoé tiveram primeiro contato em 2008; três deles sequer falam português
FLÁVIA MARTIN
da Editoria de Treinamento
As estimativas do IBGE apontam que hoje somos 191.481.045 sobre o solo brasileiro a falar o português. Três brasileiros, no entanto, continuam se comunicando exclusivamente no idioma de sua etnia indígena, o canoé.
Da língua oficial do Brasil, a índia Tiramantu (em português, "teia de aranha"), 35, seu filho, Bukuá, 7, e seu irmão, Purá ("cigarra"), 33, sabem pedir um "café" ou dizer que "não sabem". E só.
As poucas palavras do português foram assimiladas por eles a partir de 1995, quando a Funai (Fundação Nacional do Índio) fez o primeiro contato com a aldeia, localizada em uma reserva indígena no sul de Rondônia.
Em agosto do ano passado, outra data histórica na trajetória deste povo. Os três "isolados do Omerê" --como são conhecidos, por estarem perto do rio Omerê-- encontraram-se pela primeira vez com outro falante da língua, Francisco, que mora próximo ao rio Guaporé, também em Rondônia. Participaram do encontro também Rui, filho de Francisco, e o cacique da aldeira, José Augusto. Júlio, o quinto falante, não foi.
Autor da primeira cartilha escolar da língua canoé, o linguista Laércio Nora Bacelar diz que Júlio e Francisco são considerados falantes em potenciais, já que onde vivem só se escuta o português.
Durante os dez dias do encontro, Purá ensinou seus parentes a trabalhar as fibras de buriti, desde a colheita da folha até o beneficiamento para a extração da fibra, que serve para a confecção de braceletes e tangas. Ele também mostrou como se fazem e tocam as flautas, cantou, dançou e fez os rituais de pajelança.
Bacelar teve a oportunidade de testar a cartilha com os canoé considerados aculturados.
"É uma das línguas ameçadíssimas de extinção a curto prazo. Trata-se de uma língua genealogicamente 'isolada', o que, em etnolinguística, significa que a mesma não tem parentesco reconhecível com qualquer outra língua, indígena ou não", diz Bacelar.
Massacre
Em 1985, os canoé sofreram ataques de fazendeiros em Corumbiara, município que dá nome ao documentário do paulista Vincent Carelli, que, segundo o próprio, tem "20 anos de mato". Não se sabe quantos indígenas (entre eles os da etnia akuntsu) foram mortos, mas especula-se que tenha sido usado um trator de esteira, o mesmo que serve para desmatar grandes áreas.
Eleito o melhor filme no Festival Internacional de Cinema Ambiental, realizado em junho, em Goiás (GO), e com uma menção honrosa no festival É Tudo Verdade, no início do ano, em São Paulo, o documentário registra as investigações do massacre.
Carelli diz que, após as denúncias, ele foi chamado para registrar os vestígios dos ataques, em 1986. Foram nove anos até que a Funai encontrasse os canoés sobreviventes. À época, eles eram quatro: além de Tiramantu (no vídeo, a mulher de camiseta marrom) e Purá, havia a mãe deles, Tutuá, e uma sobrinha dela, Aimoró (no vídeo, a mulher sem camisa). Esta era considerada mais agressiva e entrou em conflito com os akuntsus --etnia cuja aldeia dista 4 km da dos canoés--, que a assassinaram em 1997.
"Aimoró considerava os canoés superiores aos akuntsus. Ela roubava as panelas que a Funai dava aos akuntsus. Ao mesmo tempo, os akuntsus também provocavam, pois colhiam na roça dos canoés", conta Laércio Bacelar.
Perda da língua
Em canoé, não existe uma dicotomia feito "feio e bonito", "alto e baixo", gordo e magro". "O que existe é a negação de um conceito positivo, como ‘gordo’ e ‘não gordo’. Não existe ‘magro’. Isso reflete uma visão de mundo mais positiva", diz Bacelar.
Estudioso da língua há quase 20 anos, ele é autor de uma gramática --que foi sua tese de doutorado na Universidade Católica de Nijmegen, na Holanda. Atualmente, desenvolve um dicionário canoé-português, português-canoé, além de material didático para a comunidade canoé já aculturada.
"Registrar o maior número de palavras e elementos gramaticais da língua é o único meio de salvá-la cientificamente", afirma.











