Caapores têm única língua de sinais indígena catalogada no Brasil
VITOR MORENO
da Editoria de Treinamento
Linguista que fez registro do idioma tenta traduzir gestos com ajuda de computador; antropóloga diz que, nas aldeias, nem todos se comunicam com surdos
Quando Lucinda Ferreira voltou de uma temporada de quase um mês na aldeia indígena de Carapozinho, na terra indígena de Alto Turiaçu, no Maranhão, trouxe vários vídeos em super-oito milímetros. A maioria deles tinha pouca qualidade técnica, segundo ela própria. Quase todas as cenas focalizavam as mãos dos moradores da aldeia, os índios caapores.
A linguista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que fez a viagem em 1982, estava interessada nos gestos que os surdos da aldeia desenvolveram para se comunicar. Os caapores têm uma das únicas línguas de sinais indígena conhecidas no Brasil _ a única catalogada pelo Ethnologue. No mundo inteiro, de acordo com o levantamento, são 121 línguas de sinais, indígenas ou não.
Os dados do estudo foram compilados em 1986. Na época, havia sete caapores surdos, que tinham a língua de sinais como único idioma. Além disso, todos os cerca de 500 caapores falantes tinham a língua de sinais como segunda língua. A Unesco diz que, em 2006, havia 991 indígenas dessa etnia.
A porcentagem de surdos que havia na etnia (1,4%) é considerada alta pela linguista Lucinda Ferreira _ segundo o último censo do IBGE, de 2000, a proporção de pessoas com incapacidade permanente de ouvir no Brasil é de 0,1%. De acordo com o Instituto Sociambiental, a incidência foi provocada por uma doença infecciosa conhecida como bouba neonatal. A doença é causada por uma bactéria e, quando a mãe é infectada, isso pode gerar surdez no bebê. Hoje, a doença não é mais endêmica na região.
Ferreira, que trabalha desde 1979 com línguas de sinais, diz que mesmo quem não era surdo sabia se comunicar na língua de sinais dos caapores. "Não havia preconceito contra quem era surdo. Havia integração deles na sociedade", conta.
Segundo ela, a língua de sinais dos caapores é muito diferente da Libras (Língua Brasileira de Sinais). "Eles não têm contato com americanos e franceses, como aconteceu com os surdos que usam a Libras", explica.
Atualmente, Ferreira está usando os filmes que fez em 1982 para traduzir o que significa cada um dos gestos da língua, com o auxílio de um programa de computador que separa as unidades que compõem os sinais. Ela pretende voltar a visitar os caapores e lançar um livro sobre a língua.
"Eu fiz o levantamento morfológico e léxico da Libras. Todo mundo hoje sabe a tradução dos sinais por isso. Com os caapores, estamos tentando fazer a mesma coisa", diz.
Pouco usada
A antropóloga Claudia López, do MPEG (Museu Paraense Emílio Goeldi), que esteve com os caapores neste ano e estuda a etnia desde 2007, diz que não ter percebido a língua de sinais como algo conhecido por todos na aldeia.
"Eu sou antropóloga, meu tema de pesquisa não é a língua, mas tenho a impressão de que isso não é uma coisa socializada por todo o povo caapor."
Claudia conta que, nas aldeias onde esteve _ são nove ao todo _, encontrou apenas um menino surdo. "Quando tento me comunicar com os meus sinais, ele entende", conta.
Formado em letras, Thiago de Castro, que viajou com Claudia para a aldeia em 2007, diz que tentou fazer uma lista de palavras usando a avó do garoto como intérprete. "Foi difícil de me fazer entender. A avó já é idosa e não fala bem português", diz.
Para Lucinda Ferreira, as hipóteses para que os pesquisadores do MPEG não tenham visto a língua de sinais sendo usada são duas: "Ou a língua está caindo em esquecimento ou os caapores não sentiram necessidade de usar isso perto deles. Eles só falam quando é necessária a comunicação com os surdos".
Ela aponta a segunda hipótese como a mais provável. "Essa língua corre menos risco de se perder do que outras línguas indígenas que têm duas ou três pessoas falando."
Mais sinais
O linguista Gilvan Müller, do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística, explica que todo surdo de família ouvinte começa a gerar um sistema para se comunicar com os parentes. "Se há mais surdos na comunidade que interagem entre si e a experiência de surdez se transmite de uma geração para a outra, então se estrutura uma língua completa", diz.
Hoje, já há evidências de que outras línguas de sinais indígenas estão surgindo. A pedagoga Shirley Vilhalva, do Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez, pesquisou algumas delas em aldeias do Mato Grosso do Sul.
"Em algumas aldeias caiová guarani, os índios surdos têm sinais emergentes que são usados pelos familiares e amigos da comunidade."
Também pedagoga, Marisa Fátima Giroletti pesquisou os sinais dos índios caingangues, de Santa Catarina. O estudo priorizou a interação dos surdos dessa comunidade com a Libras.











